Li, com tristeza, o desbafo da professora Vanessa Storrer - da rede Municipal de Curitiba, a respeito das humilhações, do sacrifício e da falta de reonhecimento ao exercício do magistério. Não vou repetir aqui os seus argumentos alinhavados com um misto de revolta e frustração em texto que circula pela internet e me foi enviado pelo amigo Helio Rubens de Arruda e Miranda, editor do ROL – Região On Line.
O relato, que merece profunda reflexão por parte dos governos e da comunidade, trouxe-me à memória trecho do livro Sonhar é Preciso* que reflete a realidade dos anos 1960, completamente oposta ao que observamos nos dias atuais. Perceba, o leitor, como eram, à época, as relações entre alunos, seus pais e os professores:
INTEGRAÇÃO ESCOLA FAMÍLIA E COMUNIDADE
“Nas áreas periféricas onde havia pequenos grupos de crianças sem matrícula, decidiu-se apelar para a colaboração das professoras residentes nas imediações. Mais uma vez a resposta foi positiva. A aceitação do programa superou as expectativas. As professoras saíam em busca de alunos e quando reuniam o número mínimo eram contratadas pela prefeitura, que se encarregava das despesas de aluguel e manutenção da sala. O delegado estadual de ensino mandava as carteiras e autorizava o funcionamento das classes isoladas, cuja professora ficava subordinada à coordenação e supervisão do diretor do grupo escolar mais próximo. Esse vínculo garantia a qualidade do ensino e a aplicação das normas de procedimento da rede oficial.
Uma das emoções mais fortes que senti ao longo dos muitos anos de vida pública ocorreu em visita que tive a oportunidade de realizar numa dessas “classes isoladas”.(…)
O AMBIENTE NA ESCOLA
Na frente do quadro negro entre o globo e a estante, sobre uma mesa simples coberta por uma toalha bordada com capricho, destacava-se um vaso de vidro barato com flores colhidas pelos alunos no caminho da escola: uma rosa, um copo-de-leite, um ramo de sálvia, outro de primavera. As mais lindas flores dos jardins da vizinhança, para a professora, com carinho e veneração.(…)
As professoras, jovens e recém-formadas, ocupavam posição de prestígio na comunidade. As mães dos alunos devotavam-lhes respeito e admiração, sentimentos que procuravam transmitir aos filhos.
As precárias condições físicas e a carência de meios eram compensadas pelo ambiente de cooperação e afeto. O que se perdia pela falta de recursos, recuperava-se pelos sentimentos de solidariedade e de alegria. Com esse espírito eram superadas as dificuldades no período crítico da falta de vagas escolares. A comunidade aceitou o desafio e venceu…”
Sonhar É Preciso – Comunidade e Política nos Tempos da Ditadura; Edifieo p.373.