Vivemos no marvilhoso país da fantasia. Por aqui tudo é possível, e o que não é, também acontece. Quem imaginaria que o Judiciário, festejado como a ”cidadela inexpugnável” da honra e da lei, fosse, um dia, investigado por denúncias de supostas irregularidades levantadas pelo Conselho Nacional de Justiça. Eliana Calmon, ministra corregedora do Conselho, depois de ter suas ações sistematicamente cerceadas, desabafa: “Parece haver um complô para que não se puna ninguém no Brasil.” (Folha de S, Paulo – 26-12-2011. p. A8).
O Conselho Nacional de Justiça foi criado, por emenda constitucional, para investigar eventuais irregularidades e desvios de comportamento de magistrad0s. A Ajufe, a AMB e a Anamatras, as três entidades representativas dos juízes, ignoraram as denúncias e resolveram apostar na tentativa de mudar o foco dos fatos requerendo à Procuradoria-geral da República e ao próprio Conselho a investigação da conduta da ministra corregedora. Paralelamente, dirigiram-se ao STF onde conseguiram duas liminares: A primeira, do ministro Marco Aurélio Mello, limita as ações do CNJ e a segunda, do ministro Ricardo Lewandowski, suspende a inspeção que a equipe integrada por profissionais do próprio CNJ, da Receita Federal, do Banco Central, da Policia Federal e do Coaf, realizava nas folhas de pagamento de 22 tribunais do país. Pressionada a ministra Eliana Calmon não recua. Declara-se vítima de ”linchamento moral” e afirma não ter do que se desculpar: ”Eu não ofendi todos os juízes. Eu quero é proteger a magistratura dos bandidos infiltrados”. Essa ressalva é necessária pois seria a maior injustiça generalizar.
CONGRESSO NACIONAL OMISSO
Dos congressistas pouco se pode esperar. A cultura bacharelesca predominante no legislativo inibe a ação de deputados e senadores que, em sua maioria, se omitem da missão de exigir transparência na investigação das supostas irregularides. Subjacente ao processo de democratização das instituições brasileiras, perdura, entre as elites políticas e judiciárias, acordo tácito típico das sociedades aristocráticas. A interface entre Legislativo e Judiciário, decorre de processo histórico de cumplicidade consolidado por secular tradição refratária ao ideal de igualdade e à primazia dos princípios republicanos. Imposto de cima para baixo, com escassa participação popular, o estado brasileiro é imperial. Concebido para garantir privilégios da classe dominante, tem ignorado, ao longo do tempo, as multidões de pobres, analfabetos e marginalizados. O “estado sem povo” é herança que vem aprofundando a gigantesca dívida social do país, em especial com a educação, alargando a distância entre o poder e a sociedade e restringindo o grau de politização dos brasileiros.
NEM TUDO ESTÁ PERDIDO
Quando a maioria da classe se cala, por espírito de corpo ou por compreensível temor de represália, ouve-se a voz da revolta de magistrados das mais longínquas regiões do país que, inconformados com a atitude corporativista dos dirigentes de suas associações, protestam em defesa do controle externo para assegurar a transparência das ações do Judiciário. Além dos representantes da classe identificamos outras manifestações que merecem especial destaque:
1 – Segundo o jornal Folha de S. Paulo (26-12-2011. p. A8), Nelson Jobim, ex-presidente do STF, expõe sua posição em cinco ou seis tópicos de artigo inédito que transcrevemos: ” … o esvaziamento do CNJ é um retrocesso; (…) em nenhum poder a necessidade de controle é ‘tão pronunciada’ como no Judiciário; (…) ‘em nenhum momento as associações de magistrados aceitaram’ um órgão como o conselho criado para fazer o controle do Judiciário; (…) se prevalecer essa tese o CNJ ‘passará a ser órgão dependente de ações prévias – de duvidosa ocorrência e transparência’ – dos tribunais. (…) ’As elites dos estados federados debatem-se para impedir que seus pretendidos espaços sejam objeto de exame por órgão de visibilidade nacional.’”
2 – No editorial “Chicana no STF” a Folha de S. Paulo (21-12-2011) escreve: “Decisão do ministro Marco Aurélio Mello de suspender poderes do CNJ é mais uma demosntração de corporativismo no Judiciário.”
3 - - O presidente da OAB, Ophir Cavalcante, defende o controle externo do Judiciário: “Nenhuma autoridade está imune à verificação da correção de seus atos, daí porque é fundamental que para além de preservar a competência concorrente do CNJ para apurar desvios éticos, em respeito ao cidadão brasileiro, sejam apurados todos e quaisquer recebimentos de valores por parte de magistrados, explicando-se à sociedade de onde provêm e a razão por que foram pagos”, ( ig, 22-12-2011) .
Entidades que têm tradição de luta democrática, como a CNBB, a ABI, e tantas outras, não têm o direito de silenciar neste momento histórico em que se defende a transparência e se combate a impunidade. Da mesma forma a sociedade civil organizada e atuante tem o dever de se mobilizar em defesa do CNJ ameaçado pelas tentativas de limitar seu poder e transformá-lo em orgão decorativo.
É tempo, como se percebe, de virar a página desse episódio, com patriotismo e bom senso, porque, à luz da polêmica em curso, uma constatação já é visível: A resistência ao controle externo desgasta a credibilidade do Judiciário e isso é ruím para a instituição e péssimo para o Brasil.
Maravilhoso esse artigo, professor Guaçu! Que bom que ainda existe gente da sua qualidade que, com o destemor de sempre, denuncia as irregularidades e maracutaias do Brasil! Parabéns pela lucidez e clareza de exposição. Gostei tanto que tomei a liberdade de publicar seu artigo no jornal que edito, o ROL – REGIAO ON LINE, para que mais pessoas tomem conhecimento do que ocorre na (in)Justiça Brasileira e quem são os responsáveis pela não averiguação das falcatruas que a envolvem isso sem falar das incriveis mordomias que beneficiam nossos magistrados, com seus salários altíssimos e as muitas ferias e feriados que têm direito. Caso não seja do seu agrado que eu faça a publicação, por favor, me avise para que eu possa despublicar a matéria. Aproveito para desejar um 2012 excepcional para você, sua familia e a todos os homens cultos e de bem!
Oi Heli Rubens,
Agradeo emocionado seu comentrio. Desde o programa “Na Berlinda” quando tive o privilgio de conhec-lo passei a admirar seu trabalho, inteligncia e coragem cvica. Muito bom saber que o post est no ROL. O amigo pode divulgar o texto como e onde desejar. Retribuo os votos de feliz ano novo.
A única esperança que resta-nos é o caos.Já dizia um filósofo,que o homem só se reencontra no caos. Quem sabe nos veremos melhor no caos? É o caos.Estão decidindo em causa própria. É o fim. Não basta inamovibilidade, vitaliceidade etc… Até se entende essas prerrogativas. Mas, julgar em causaprópria é o caos. Chegamos lá: no fundo do poço. E o pior, parece que que não ha´ limites quando classe é uma casta. CNJ com autonomia plena,ampla e irrestrita é a saída? Ou o fim de uma casta? Eu não sei o que é pior:legislar em causa própria ou julgar em causa própria. Se é um Estado sem povo ou o povo sem Estado.Tudo fruto das veias abertas da américa latina. Ainda ha ´tempo.
Guaçu, nosso grande mestre da política osasquence!!!!. Infelizmente, o Brasil faliu já há algumas décadas e estão querendo segurar aquilo que não tem mais jeito: a falência do Estado Brasileiro. As leis não conseguem mais estancar as barabaridades que cometeram e continuam fazendo em cima da própria lei. A lei justifica todos os crimes…e a justiça brasileira desde o tempo do nosso saudoso Rui Barbosa, precisa de mudanças estruturais. Isso não acontecem e ficam querendo por bicheiro na cadeia prá dizer que a justiça é para todos…o nosso povo não acredita na Justiça. Só faltam aos que dirigem país, descobrir que a Justiça acabou e precisamos imediatamente de uma Constituinte para colocar o Brasil de pé, porque o Gigante continua deitado em berço esplêndido e doente.
Tonca Falseti
Comentando sobre o Poder da Corrupção que se faz presente na atmosfera política brasileira,não é surpresa que o Poder Judiciàrio aderisse
a essa malfadada palavra,integrando-se na “Farinha do Mesmo Saco”
“Brados Fortes”da ministra Eliana Calmon quando grita sem medo,representando o pensamento de todos os cidadãos de boa vontade.
Isabella Leal
“Infeliz do povo que precisa de heróis e agora de uma heroína…Sabemos o que isto significa: o fim, o caos de todas as Instituições e no caso,da última trincheira… Levaram nossos metais,acabaram com nossos índios, com Maias,Astecas,Guaranis ( nem o de Campinas resistiu) e estamos condenados a sermos uma extensa Potosi… Seria necessário se fazer um povo mais atento…