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Dá para acreditar?

A Odebrecht e suas parceiras do famigerado Clube das  Empreiteiras prometem, agora, implantar “…as melhores práticas de compliance, baseadas na ética, transparência e integridade.” Que assim seja, mas não vamos nos iludir. A fiscalização  da roubalheira sistêmica instalada no país exige rigoroso acompanhamento das ações de empresas denunciadas por desvios de conduta e, já se sabe, que a única punição que as preocupa é a suspensão da prerrogativa de participar de licitações governamentais. A propósito, há países em que empresas são arroladas em bancos de dados pela prática de delitos administrativos e econômicos. (v. no livro Blog do Guaçu Piteri – 5 anos sem fronteiras; Ontem no blog, hoje na Folha de S. Paulo; Edifieo – p. 76). Mal comparando, como há o político “ficha suja”  que é temporariamente impedido de participar da vida pública, por que não se adota critério análogo com pessoas jurídicas? Por que não se ataca a corrupção  pelas duas pontas, a dos corruptores e a dos corruptos? Não vai faltar quem questione essa proposta sob as alegações de que não é possível; não é justo; não é democrático; vai estagnar a economia e aumentar o desempego. Esses argumentos, transformados em tabus a serviço dos interesses dos maus empresários e em prejuízo dos bons, perderam a validade no Brasil. A Lava Jato encarregou-se de desmitificá-los demonstrando que é possível; é necessário; é democrático e é economicamente vantajoso combater o crime praticado pelas gigantes da economia, sejam públicas ou privadas. Mais do que isso, provou, também, que tudo pode ser realizado dentro dos limites da lei, da transparência e de amplo direito à defesa. Elio Gaspari compara: “Entre 1968 e 1979, com cerca de duzentos funcionários, inclusive dois generais, (a ditadura) investigou 25 mil pessoas, abriu 1.153 processos e confiscou os bens de 41 pessoas apurando uma mixaria. (Os grandes tubarões ficaram de fora.) Em apenas três anos, respeitando as regras do direito, a Operação Lava Jato condenou 130 pessoas a penas que somam 1.377 anos, recuperou R$ 10 bilhões e bloqueou outros R$ 3,2 bilhões.” (Ditadura? Folha de S. P. Poder; 2/04/2017). Ademais dos resultados práticos alcançados, os brasileiros já têm robustos motivos para acreditar  que o combate à corrupção pode e deve ser realizado na plenitude do Estado Democrático de Direito. Os políticos que pregam o retrocesso à ditadura, dos times de Maluf, Bolsonaro e seus genéricos, foram desmascarados pela performance da Operação Lava Jato, que está passando o Brasil a limpo, dentro da lei e com maciço apoio popular.

A pauta da semana passada no Tribunal Superior Eleitoral era o julgamento da cassação da chapa Dilma-Temer por abuso do poder econômico e político. Mas, como já se desconfiava, os ministros resolveram consumir o tempo na base da enrolação… Ops, na base do exame das preliminares. Depois de muita discussão, decidiram, suas excelências, convocar novas testemunhas, conceder mais prazo para a defesa, e realizar mais uma rodada de tomada de depoimentos. Embora desapontado com a clamorosa chicana, o ministro relator, Herman Benjamin, manteve o “fair play”. Guardou o relatório que – para não perder o prazo processual – havia preparado às pressas, em árdua  batalha contra o relógio, e protestou, com ironia: ” Não podemos ouvir Adão e Eva”.

Quando será retomada a pauta? Não há previsão. O maior responsável pela definição da agenda, ministro Gilmar Mendes, presidente do TSE, parece não ter pressa. Viajou a Portugal, e, antes de regressar ao Brasil, dá uma esticadinha a Paris. Nos bastidores de Brasília, não é mais segredo. A turma do Temer trabalha com uma certeza, ou melhor, duas: 1 – Se houver o desfecho da ação, a condenação da chapa é inevitável; 2 – O expediente da separação das contas para poupar o mandato do presidente, não cola. Mas Temer não demonstra preocupação. Ele sabe que pode escapar da condenação pela rota de fuga do foro privilegiado que é a certeza da impunidade. No vai e vem do movimento pendular dos recursos, embargos e pedidos de vista, no TSE e no STF, o julgamento vai para as calendas. E Temer, seguirá reinando do jeito que mais gosta – com pompa, circunstâncias e mesóclises – pelo ano e meio que resta da catastrófica herança do acordo PT-PMDB/2014, que levou o Brasil ao fundo do poço.

 

Eduardo Pavão

Acabo de receber a notícia da morte do Eduardo Pavão… Moço, amigo, na plenitude da vida, ganhou meu respeito e consideração, desde o dia em que nos conhecemos. Tive vontade de telefonar ao amigo Amaury, seu pai, que estimo, e que, neste blog, é meu parceiro. Faltou-me a coragem. Fica aqui o registro dos meus sentimentos, com forte abraço ao Amaury, e sua família, que têm o DNA de Osasco…

A repórter  da Globo: “Presidente, o que vai acontecer com os parlamentares enrolados na Lava Jato?”

A resposta de Rodrigo Maia: “Enrolados, não: Citados.”

A ironia do Nada Ingênuo Holandês Voador: “Ah, bom!”

LAR FELIZ

Amaury Borges Pavão

No dia 14 de Março de l946, na residência localizada à Avenida Eulálio de Carvalho, via que foi depois rebatizada como Avenida Oswaldo Colino, à altura do número 16, , em Presidente Altino, subúrbio da Estrada de Ferro Sorocabana também renomeada como FEPASA, ao cair da tarde, vinha à luz mais um filho do casal Francisca  (“Chiquita”) e Lucas Pavão.

O nascimento da criança, como não poderia deixar de ser, trouxe muita alegria àquele lar, onde já havia um pugilo de quatro molequinhos e uma menina, os quais passariam a ajudar a mãe nos cuidados com o bebê, assim         como já o faziam nas lidas da casa. O esperado advento do novo cristão, entretanto, não ficaria, como não ficou, gerando seus frutos afetivos somente na estrita esfera da constelação familiar. Avó, tias e tios, primos, primas e demais parentes e amigos, todos se viram envolvidos pelo caloroso clima de novidade e auspiciosas promessas que o bebêzinho trazia consigo. A galera se compunha de gente simples e humilde, mas onde faltavam luxos sobravam carinhos, cuidados e atenções.

O recém nascido possuía um tio, irmão de sua mãe, que era cantor e compositor, vocalista da orquestra de Milton Peruzzi, “band leader” de razoável prestígio naquela época. Esse tio, Francisco Ávila, já tinha gravado dezenas  de suas criações, duas delas com sucesso: “Operária”, com Francisco Egidio e “Réveillon”, com Neide Fraga, contratada da antiga TV Record, antecessora da hoje monumental, Rede Record, entre outras.

Como autêntico profissional da MPB da era do rádio, Ávila numa das constantes visitas que fazia à irmã, ainda convalescente, pediu a um dos sobrinhos um caderno. Um caderno desses simples, formato brochura. Na página em branco que abriu, sem pressa, escreveu uma poesia, despretensiosa, singela fácil de ler e de interpretar. Destacou a folha, releu o conteúdo da página e dobrou-a guardando-a no bolso do paletó, peça indumentária de todo artista daqueles tempos.

Como freqüentava diuturnamente o mundo artístico, isto é, bares, cabarés, estações de rádio , gravadoras e pontos de reunião onde se concentravam os exponenciais da boemia paulistana, mostrava aos que o interpelavam por notícias recentes, a nova composição que vinha de lavrar: “Lar Feliz”, uma valsa bem ao estilo da época.

Numa dessas ocasiões em que exibia a letra e trauteava a música que compusera, um conhecido produtor de discos lhe aconselhou:

– Dê essa música para a dupla Tonico e Tinoco gravarem! A composição “tem a cara deles”! –  sentenciou.

Ávila ficou simplesmente injuriado com a recomendação. Naqueles tempos havia muito preconceito contra a música raiz e seus aficionados, e Ávila era dos mais reacionários.

– “Deus me livre e guarde”! – exclamou. Prefiro rasgá-la e jogar fora do que dar minha música para uma dupla “caipira” gravar. Isto nunca…!”

O tempo, porém, se encarregava de pôr as coisas nos  devidos lugares. Ávila não encontrava nenhum astro da canção tupiniquim para gravar “Lar feliz” e o tal produtor insistia que os intérpretes ideais, perfeitos para garantir-lhe expressivo sucesso, só podiam ser Tonico e Tinoco.

Com a vontade muito vacilante, tal qual se estivera condenando a singela composição ao ostracismo, cheio de dúvidas e inquietações, o veterano autor concordou em ver sua valsinha eternizada no disco, por uma dupla famosa, consagrada, imbatível e vitoriosa, mas “caipira”.

Veja o leitor como o ser humano é capaz de se equivocar, dando aos enganos dimensões extraordinárias. A valsinha “Lar Feliz” esgotou-se no mesmo dia em que o disco foi lançado à venda. A gravadora teve que tornar a gravar muitas vezes o disco, estrondoso sucesso de vendas,

sob a perplexidade dos produtores e dos intérpretes, espanto e assombro do autor que não sabia mais o que pensar, enquanto o disco subia um todas as paradas de sucesso. E rendendo uma arrecadação digna de respeito e admiração. Deu um bom dinheiro! Sucesso e ouro andam de mãos dadas. Onde você se encontrasse, fosse  num bar, numa casa, num taxi, iria se ver obrigado a ouvir a valsinha, tocada em todas as emissoras do país, por amantes da música caipira e ex-detratores do gênero, reunidos na mesma admiração pela imorredoura dupla Tonico e Tinoco.

Francisco Ávila morou no Quilometro Dezoito e em Presidente Altino (Osasco). Sua valsa foi também gravada por outros intérpretes.  Recebeu o percentual monetário que lhe cabia por direito de autor, durante mais de vinte anos.  A valsinha composta na mesa da cozinha de uma casa modesta, durante anos e anos rendeu o pão de cada dia, com apreciável fartura, ao preconceituoso autor, depois fã incondicional, por razões óbvias, l da música caipira e de seus intérpretes.

 

052“Sou democrata, antes de socialista” – Mario Soares.

Em menos de um mês perdemos dois grandes vultos da História. Um, em São Paulo, o outro, em Portugal. Essa dolorosa coincidência, traz-me à lembrança, um episódio inesquecível. Em visita ao meu gabinete na prefeitura de Osasco, Mario Soares – Primeiro Ministro, Presidente e herói da resistência democrática – manifestou o desejo de conhecer Dom Paulo – o campeão da luta em defesa dos Direitos Humanos. Levei-o à presença do eminente Prelado.  A audiência de quinze minutos prolongou-se por mais de meia hora.  À saída, Mario Soares não economizou elogios às posições do estimado cardeal: “É de Bispos “politiqueiros” assim, que estamos a necessitar”. Quando informei que o termo ”politiqueiro”, no Brasil tem conotação depreciativa, a resposta veio bem humorada:

“Depois da invasão  das novelas da Globo, em Lisboa já não se tem certeza se foi ‘gajo’ que virou ‘cara’, ou vice versa.”

 

cadeia-femininaVocê sabia, caro leitor, que cerca de 40% dos detentos não deveriam estar presos? A culpa da superlotação carcerária, não é só do Executivo. O desembargador aposentado Walter Maierovich é categórico: “As cadeias estão lotadas porque a Justiça não funciona”. (Folha de S.P.; 09/01; p.A2). Será que com o empenho demonstrado, agora, pela Ministra Carmem Lúcia, presidente do STF, e a pressão da sociedade civil, o problema será encarado com responsabilidade? A conferir.